domingo, dezembro 17, 2017

Um almoço com Carecas

A vida foi me dando amigos ao longo destes anos e fazendo com que eu ganhe cada vez mais Vontade de Viver. Ontem o dia foi carregado de emoções e partilhas apesar de nestes onze anos de luta eu já estar habituada a dar e receber, ganhar e perder! 
Mais um almoço. Mais uma ida à aventura do desconhecido e sempre na expectativa de encontrar em cada uma, um bocadinho de mim e receber mais e mais para poder continuar a ajudar e a agarrar a vida com mais força e determinação. A Rosa foi a primeira, pois levou comigo desde Ovar até ao Porto e sempre a assapar! Há coisas que não se explicam, mas esta conversa de "mamas" faz com que as barreiras sejam de imediato quebradas e tudo é tão normal e banal, como que o nosso relacionamento não fosse de momento. 
Na Marina do Freixo, onde o sol brilhava, estava um grupo de mulheres lindas à nossa espera, para nos guiar até ao maravilhoso restaurante à beira rio onde o restante grupo nos aguardava para festejar a vida e partilhar os sorrisos, os abraços, as experiências, as dúvidas e tudo o mais que nós com os nossos corações e as nossas disponibilidades podemos dar e receber. 
Para mim estas experiências já acontecem há muitos anos "felizmente" e quero que continuem a acontecer, porque o cancro apesar de ter alterado a minha vida e me ter fragilizado fisicamente, emocionalmente deu me uma força muito grande e fez me ver a Vida de uma maneira diferente. Passei a dar muito mais valor às pequenas coisas e aos sentimentos que nos enchem o coração.  A mulher mais dura e mais austera morreu e a solidariedade veio ao de cima deixando ver o que realmente estava escondido pela vida. Talvez por toda esta racionalidade e até frieza no início, tenha sido mais fácil a minha luta e só ter interagido quando terminei todo o processo de tratamento. 
Tudo era diferente. As redes sociais não existiam, apenas os blogues e pouca informação estava disponível. Mas foram eles que nos uniram e fizeram com que grandes grupos de amigas percorressem muitos km de norte a sul para grandes abraços e partilhas.
Ontem voltei a sentir como que tudo voltasse ao inicio!
Gostei da energia de cada uma. Nem todas conseguem ser tão fortes como outras, mas a entre ajuda é muito grande e senti que se dá a camisola pelo outro.
Não podia deixar de haver a tradicional prenda de natal e não foi por acaso, que eu recebi um coração bem gordinho e "encarnado". A minha sorte!
Foi bom, muito bom e vou querer repetir sempre que me for possível estar presente. 
Estamos no Natal em que todos têm um coração grande em que todos apregoam aos sete ventos pela solidariedade, mas o Natal é todo o ano e há muitas/os mas muitas/os que vão precisar de nós. OBRIGADA . BOM NATAL
  

sexta-feira, dezembro 01, 2017

O Zé dos Xutos é uma estrela

A semana foi menos boa, para não dizer lixada. Para nós "os duros" quando ouvimos estas notícias, sentimos sempre um frio que nos percorre a espinha e nos leva o pensamento a lugares que tentamos sempre desviar!
Desde a arte de representar ao jornalismo e agora ao ícone da música Rock e que tanto me fez saltar, gritar, sentir momentos de euforia e plena alegria, fazer km para os ouvir e ver, conduzir centenas de km ao som das suas músicas, muitas vezes elas é que me davam a força para continuar. Não é fácil ouvir a notícia da partida de alguém que marcou a minha adolescência, a minha juventude e que ainda hoje eu corria para os ouvir tocar!
Os XUTOS são únicos e ninguém vai substituir o Zé Pedro, porque ele era e vai ser sempre ÚNICO. O Zé gostava demais de viver, sabia o que queria e sabia como cativar as pessoas e sabia também que as gerações bem mais novas o ouviam. No concerto que os Xutos deram a 26 de Setembro no estádio do Restelo na véspera das eleições, o Zé Pedro dirigiu se ao público, mas principalmente aos mais jovens e disse textualmente:

"Amanhã vai ser um dia importante para o nosso País e estejam atentos, não tenham medo do futuro, há aqui pessoal muito novo e o futuro pertence vos, mas não tenham medo de todos os riscos que vão ter de enfrentar. A gente não vos vai deixar uma sociedade muito boa, mas vocês, oxalá consigam mudá la, oxalá que consigam construir e alcançar a Paz que tanto era preciso que a gente conseguisse alcançar de qualquer maneira. Eu acho que a vossa participação é sem dúvida nenhuma importante. Não deixem que os outros decidam por vocês, façam a vossa escolha, às vezes temos nós que ter o problema, mas muitas vezes somos nós a solução. Uma coisa que vocês não deixem, é serem atingidos pela submissão."

Grande mas grande Zé Pedro vai ficar sempre nas nossas memórias com as suas músicas e o seu sorriso sincero. RIP 

quarta-feira, setembro 13, 2017

O nosso amigo acordou . . .

Maria, nome fictício, está com a segunda recidiva. 
Ontem recebi uma mensagem que dizia: "o nosso amigo acordou, vou amanhã dia 13 fazer quimioterapia". 
Conhecia nos corredores do hospital, no intervalo de uma qualquer consulta que ambas tivemos, pelas mesmas razões. Pois fomos companheiras de lutas por alguns anos. Quando ela chegou, eu já lá andava e para mim foi fácil dar uma ajuda e uma força. Quando abandonei o piso quatro, Maria ainda por lá ficou e acabámos por voltar a encontrar nos no grupo de apoio, uns tempos depois. 
Durante a terapia, houve a primeira recidiva que Maria acabou por superar com o apoio de todas nós e da terapeuta. Hoje está mais vulnerável e dizia me que se sente sem forças, está mais só, tem mais idade, pois o grupo faz lhe muita falta. 
Não é só à Maria que faz falta! São muitas as mulheres que neste momento estão a viver situações como a dela e outras que viveram situações de cancro de mama que se sentem desamparadas, porque não têm com quem falar da sua condição. 
Por mais que a família ou os amigos possam ou queiram ajudar, nunca conseguimos ter uma conversa aberta e falar a mesma linguagem e sentirmos que nos entendem.
 No CHEDV os grupos de terapia terminaram em 2015 mas actualmente estão de volta. Era tão bom que voltassem a chamar todas estas mulheres para os grupos terapêuticos, porque o único momento que tinham durante o mês para falarem de si com quem as entendiam, falarem dos seus males, das suas alegrias, das suas dores e de tudo mais que tivesse relacionado com o que as levava àquele espaço. Não estou a falar por falar! Sei do que falo, porque continuam a comunicar comigo e sempre que as encontro, no final das nossas conversas dizem me : "faz me tanta falta o grupo com a Dra  _ _ _ _ _".
Vamos lá pensar nisso, quem de direito, se me estiver a ler!

   

segunda-feira, julho 10, 2017

Nada acontece por acaso

Passaram onze anos desde o dia em que numa tarde de verão tive alta do hospital sem uma resposta concreta e com muitas dúvidas por esclarecer!
Após me ter sido diagnosticado um cancro na mama e feito uma mastectomia radical com esvaziamento ganglionar, ainda muito estava por saber, pois o estadio era elevado e os tumores tinham-se multiplicado num curto espaço de tempo,  dois meses apenas. 
Como qualquer ser humano, a minha primeira reação ao ter a notícia de que tinha um cancro, foi pedir ajuda acreditando que há algo para além do visível e palpável que sobre nós, tem a capacidade de dar uma força sobrenatural, para que possamos levar a vida neste mundo terreno com dignidade e ajudar quem precisa.
Chorei, rezei, estrebuchei, fiz tudo o que tive necessidade naquele momento para deitar fora a "raiva" que se apoderou de mim e fui a Fátima com a minha amiga Mane rezar e pedir a Nossa Senhora que me desse força e me ajudasse. Nessa altura, nenhuma de nós tinha bem consciência do estado em que eu estava e ficou a promessa de lá voltarmos quando tudo estivesse tratado.
Os anos foram-se passando, muitos caminhos fizemos juntas, Santiago de Compostela a nossa perdição e Fátima foi ficando, ora por isto ora por aquilo!
Não sou apologista de promessas, muito menos daquelas em que o sofrimento é um acto de violência. Proporcionou-se fazer esta caminhada até Fátima, grande parte utilizando os Caminhos de Santiago pelo interior do Pais, onde a paisagem e as gentes nos recebem e saúdam, cruzamos-nos  com vários peregrinos, não tivemos a violência nem o perigo dos carros e camiões nas estradas e fizemos ao nosso ritmo. 
Foram doze etapas de muito convívio, entreajuda, muitas fotografias e em que as pessoas se foram conhecendo etapa a etapa, estreitando e afastando laços, nuns e noutros casos.
No passado sábado, 8 de Julho chegámos ao Santuário de Fátima cerca das cinco da tarde. Nada acontece por acaso! Onze anos depois de eu ter tido alta do hospital e também não foi por acaso, num sábado.
Este lugar tem algo de magnético e inexplicável que nos dá uma Paz de espírito e um conforto na alma que não consigo explicar. 
Todos temos lugar naquele espaço, queiramos nós a Paz e o Amor para nos sentirmos bem.