terça-feira, janeiro 10, 2012

Balanço

O tempo passa e quase não damos conta. Cinco anos já lá vão desde a minha última quimioterapia e ainda tudo está tão vivo na minha memória como se fosse ontem.

Foram cinco anos de luta contra um inimigo que teimava em derrotar-me, mas que teimosa e casmurra como sou, não lhe fiz a vontade. Certo é, que apesar de terem passado os tão falados “cinco anos”, nada é dado como certo e apesar da força e da grande Vontade de Viver sempre fica a dúvida...

Este espaço de desabafos e onde vim buscar forças e transmitir outras, tem estado paradinho, não fosse o tão famoso Facebook que nos faz “perder” algum do nosso tempo, e abandonar sem querer outras publicações, por vezes mais úteis e abertas a todos que procuram apoio.

Vontade de Viver, iniciou-se no dia 26 de Dezembro de 2007, ano e meio após tudo ter começado e quando tive a noção exacta, por tudo o que tinha passado e quanto podia ser útil a outras mulheres a minha experiência de luta contra o cancro de mama. Durante esse tempo, fui procurando respostas junto de outros blogues e amigos médicos que sempre me apoiaram e me deram a maior força. As dúvidas eram muitas e não queria alarmar a família e alguns amigos, tendo por isso ficado um tanto fechada e lutado comigo mesma, para encontrar as respostas para o que me estava a acontecer. A minha filha tinha apenas 13 anos e precisava muito da mãe e nunca aceitou a possibilidade da não superação da minha doença. Quando tudo estava dado como estabilizado e depois de quase conhecer pessoalmente todas as bloguistas, que hoje são as minhas Grandes Amigas, abri a minha vida para elas e para quem me quisesse ler e aceitar a minha ajuda. Nunca fui mulher de baixar os braços, há sempre uma solução para tudo quando a vontade é grande e gostamos de nós e da vida.

Durante estes cinco anos, conheci pessoas fantásticas, dos mais diversos estratos sociais, mas para mim todas elas têm o mesmo valor, porque o que interessa é o seu interior.

Chorei de tristeza e de alegria. Gritei de dor, de raiva e de liberdade. Partilhei momentos bons e menos bons. Disse coisas bonitas e menos bonitas, mas não deixei nada por dizer.

Rosa Esperança, deu-me a possibilidade de conhecer pessoas lindas que vão ficar sempre comigo, no meu coração e fez com que eu voltasse à minha terra natal, Santarém. Foi, e é, uma experiência que me enriqueceu como pessoa e me deu a possibilidade de partilhar a mensagem de que há vida para lá do cancro. Foram vários os programas de televisão em que pude partilhar essa mensagem, sozinha ou com as amigas, as manifestações de carinho foram muitas e obrigada a todos sem excepção.

Este blogue trouxe-me muitas Amigas “As Amigas do Peito e do Coração” e momentos inesquecíveis que vou querer continuar a ter até ser velhinha. Fui apelidada de muitos nomes, o que já estou habituada, pois até as crianças acham que a Cinda ainda não cresceu! Neste último ano, a vida pessoal tem sido mais atribulada e menos tempo dedicado a este espaço que muitos procuram, mas prometo que vai ficar mais preenchido e mais enriquecido de hoje em diante. Vou dedicar-me mais às mais novas nesta, luta e que precisam sempre de uma força e estou disponível para ajudar, mesmo aqueles que nestes últimos tempos me desiludiram, porque tenho a certeza que ainda precisam mais de ajuda.

O texto já vai longo e o dia está lindo. Vou dar um passeio até ao meu mar, para receber mais uma lufada de energia positiva neste dia frio e de sol de inverno.



quarta-feira, novembro 23, 2011

Cinco anos após o último xuto

Oito horas da manhã, um dia de inverno frio e chuvoso, lá fui eu até ao meu hotel predileto.
Desta feita, acompanhada pela minha mãe, uma vez que era a última estadia e queria que  tivesse o previlégio de me acompanhar.
  A euforia era grande, como devem imaginar! Já sabedora que podia fazer tratamento, uma vez que fazia análises dois dias antes. A Monica, minha companheira de xuto,também lá estava mas não pôde acabar no mesmo dia, porque os valores estavam baixos. Fiquei triste por ela, tão novinha e com uma menina tão pequenina.
Foi o tratamento mais longo, cinco horas de xuto. Tive direito a tudo e mais alguma coisa. Penso até, que levei dose para me calar, o que não deu nenhum resultado.
Foi o segundo dia da minha vida em que gritei vitória. Segundo, porque o primeiro foi o nascimento do meu tesouro.
Cinco anos depois, no dia 23 de Novembro de 2011, aqui estou eu a contar a história, sempre com a mesma força e com esta alegria perante a vida, muitas vezes madrasta, mas que eu lhe vou dando umas grandes vassouradas.
Para todas as mulheres que estão em tratamentos, muita força e para quem vai começar, nada de baixar os braços e sempre que o ânimo for menos bom, há que vir aqui dar uma espreitadela, pois tenho a certeza que vai ajudar.
A vida é muito bonita para não ser vivida e há sempre uma solução se quisermos vencer.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Até ao dia em que.....

A vida prega-nos muitas partidas e por vezes nem nos apercebemos que são para nos alertar de coisas que estão menos bem e os nossos olhos ou o coração não quer ver. Neste meio século que tive o privilégio de viver, foram várias as partidas que ela me pregou. Algumas muito duras, talvez duras demais, nem sendo merecedoras delas. No entanto foi um por à prova das minhas capacidades de sobrevivência e até onde eu era capaz de ir. Ultimamente nem tenho vindo escrever no meu blogue, porque tenho andado por outros espaços cibernéticos e que têm deixado ao abandono o meu cantinho, onde sempre recebi todos sem excepção e tenho a consciência de que muitos vieram buscar forças e alento ao que eu quase diariamente escrevia. Hoje não podia deixar em vazio mais uma vez este espaço, até porque, desde que efectuei o último poste com a entrevista na RTV, muitas coisas têm acontecido. Foram várias as felicitações que recebi, de amigos essencialmente, e de alguns familiares. No entanto também fui alvo de “acusações” que têm deixado muito triste e muito calada. Na peça que podem ver e que muito mediocremente elaborei, referi acentuadamente que a minha maior força nesta luta desmedida contra o cancro da mama, foram os meus Pais, a minha Filha e os meus Amigos. Mais pessoas me ajudaram, não digo que não, e só lhes tenho a agradecer, mas efectivamente estas três referidas foram sem sombra de dúvidas o meu suporte de betão para esta luta. Os meus Pais porque precisavam e precisam muito de mim, assim como eu deles. É uma permuta incondicional, A minha Filha, porque tinha 13 anos e só tinha a mãe a quem recorrer, uma vida pela frente para viver e crescer e eu quase com uma sentença de morte. Os meus Amigos, porque nunca precisei de pedir ajuda, bastava ouvir a minha voz ou ver o meu olhar para me darem toda a força que nem eles sabem onde iam buscar.


Pode-vos parecer estranho estar com toda esta escritura, ao fim de cinco anos de luta e a situação estar quase a ser dada como resolvida. Mas na verdade hoje li algumas publicações no facebook, um espaço fechado, que me entristeceram muito e que me fazem estar acordada a esta hora da madrugada sem conseguir dormir. Neste momento está uma mulher no hospital onde eu fui operada e que daqui a umas horas vai sofrer uma intervenção porque tem cancro da mama e vai mais segura e confiante, pelas palavras que ouviu na reportagem. Deixou-me o seu contacto e quer estar comigo. Tenho o meu pai internado no Porto, porque foi intervencionado para a colocação de uma prótese na anca e à 24h atrás estava a passar muito mal. Estou com uma faringite terrível que me impossibilita de estar a apoiar seja quem for, porque não posso sair de casa.

Este texto é público e todos o podem ler e comentar sem restrições, por isso não conseguia ir tentar dormir, sem partilhar tudo isto com quem me quer bem e sempre me apoiou e me continua a apoiar. Se alguém está menos contente comigo, que o diga e que seja aberto e sincero, sem textos prefabricados e que nada têm a ver com quem os escreve.

A todos os meus amigos, um obrigada bem do fundo do coração e não preciso de dizer quem são porque eles sabem e conhecem-me pessoalmente.



domingo, outubro 02, 2011

Todas nós na RTV

            Outubro o mês Rosa
Já lá vão quase dois meses que não venho dar notícias por estes lados. Não porque o tempo seja pouco ou porque não haja que contar!
Por vezes é mesmo assim, existe a necessidade de fazer ausências em determinados lugares.



Hoje, após alguns dias passados desta entrevista em direto na RTV na cidade do Porto, penso que será a altura ideal para mostrar a quem neste momento ainda tem muitas dúvidas sobre tudo o que está a passar e pelo que vai passar. Cada caso é um caso, assim o digo, mas se tivermos muita Fé, Força e muita Vontade de Viver, acredito que vamos sempre conseguindo mais um bocadinho e chegamos a bom porto.
Peço desculpa pela qualidade da reportagem, mas foi o que consegui gravar a partir da box aqui de casa.
Uma boa semana e a Esperança é sempre a última a partir.




domingo, julho 31, 2011

Vamos sempre recordá-la assim...

A Sónia ontem partiu para um lugar que só ela sabe onde fica.
Acredito que está serena, a olhar para tudo quanto estamos a fazer e a dizer neste momento.
Tenho a certeza que ela está com o sorriso de menina que sempre lhe conhecemos e podemos rever.
Um sono em Paz minha querida.

http://youtu.be/5oT2GjMYTmM

sexta-feira, julho 08, 2011

Uma história com um final feliz

Uma pequena grande história, em três episódios, com um final feliz. Quando o querer é poder.
Jovem dorme nos bancos da sala de espera do hospital


Lucinda Maria Almeida a quinta-feira, 7 de Julho de 2011 às 3:04.
Cansadinha, acababadinha de chegar do hospital e por incrivel que possa parecer, estive a conversar com uma jovem que dorme no hospital há duas semanas para não estar ao frio e às adversidades da noite, como já lhe aconteceu, porque a mãe a pôs fora de casa. De manhã vou voltar lá para conversar um bocadinho mais com ela e tentar arranjar um lugar para a abrigar, porque a Segurança Social diz que não tem nada para ela. E é este o País que temos para quem não tem abrigo.
Custa-me a acreditar que durante duas semanas não se faça nada para se averiguar a situação desta mulher e saber a verdade da situação. Não me parece normal, nem por parte do hospital nem por parte da segurança social que nada tenha sido feito. Será que foi mesmo posta na rua? Será que haverá mais alguma situação que não a que esta mulher conta? Onde estão as chamadas assistentes sociais que têm por trabalho efectuar estas tarefas? Será que um mero cidadão, que até nem foi aceite para o voluntariado deste hospital, vai ter que resolver a questão?
Pois parece que só se olha para o umbigo cada vez mais e para o próximo cada vez menos.
Para quem ler esta nota, deixo este alerta. Olhem para o vizinho do lado, mesmo que isso faça com que tenhais que comer menos um bocadinho de pão.


Ainda continua na sala de espera do hospital...........mas já lhe dei de comer.


 Lucinda Maria Almeida a quinta-feira, 7 de Julho de 2011 às 14:38.
Aqui estou eu de novo com mais história para contar. A rapariça que tem vindo a dormir na sala de espera de um hospital, teve emprego até ao dia que o contrato acabou e o seu patrão não efectou descontos para a segurança social o que lhe deu direito a não ter rigorosamente nada a receber. Teve de fugir da casa onde vivia com o companheiro, porque este lhe batia em virtude das bebedeiras e da falta de dinheiro para as drogas. "Maria", o nome que lhe atribui, não quer ser identificada para que não a procurem e lhe voltem a fazer mal. Tem os dentes partidos por ter sido agredida pelo companheiro, fez queixa ao ministério público que lhe arquivou o processo por falta de testemunhas. Foi pedir abrigo à mãe que não a recebeu, pois também me parece não ter sequer condições para ela e ainda tem de albergar um irmão e a companheira. "Maria", foi criada num colégio até aos 18 anos, idade em que teve de abandonar o estabelecimento. Tem apenas o 4º ano, sabe fazer o trabalho doméstico e os lugares por onde passou a trabalhar nunca lhe fizeram descontos. Tudo isto ela me contou hoje de manhã quando voltei ao seu encontro e por incrível que pareça, nunca ninguém dentro daquele hospital lhe perguntou o que estava ali a fazer ou se tinha fome. Ontem comeu porque estava num estado tal de fraqueza, perdeu a vergonha e pediu comida. Já vi todos os seus documentos, assim como as cartas do tribunal e ainda hoje vou tentar que uma instituição da área em que resido a possa acolher e encaminhar. É no mínimo revoltante que num país dito desenvolvido, esteja uma pessoa duas semanas num local público sem que alguém lhe faça uma pergunta ou se interrogue o porquê da permanência da pessoa naquele espaçol.
O que fazem os voluntários desta instituilção? O que fazem os porteiros e os seguranças?
Agora já percebi porque não fui aceite nesta instituição para fazer voluntariado!!!
Se é que se faz alguma coisa ou apenas se passeiam as batas azuis com a palavra" VOLUNTÁRIO", sem ser atribuido o verdadeiro significado da mesma.
Prometo que vou voltar, assim como vou ter agora com a moça.


"Maria", a rapariga da sala de espera do hospital, já tem um lar. Obrigada


 Lucinda Maria Almeida a Sexta-feira, 8 de Julho de 2011 às 21:21.
Sentirmo-nos ricos, não significa que tenhamos dinheiro para tudo o que remos ou que ele nos venha parar às mãos sem qualquer esforço. Hoje eu senti-me rica, de coração cheio, de bem comigo e com os outros. Nesta semana que está a acabar, foram várias as vezes que tive de ir ao hospital, por esta ou aquela razão sempre acabando tudo em bem e resolvido. Na noite de quarta-feira, já madrugada de quinta-feira, deparei-me com uma rapariga que dormia nos bancos da sala de espera do hospital. Como não sou nada curiosa e a Margarida está sempre a desafiar-me, fui ter com a moça para conversar. A história já a contei nas notas anteriores, tendo dado origem a vários comentários louváveis e que certamente terão ajudado muito na minha participação da situação a quem de direito.
Ontem estive no hospital de manhã para recolher a documentação da “Maria” e poder enviá-la para quem pode e sabe tratar de situações destas. Falei ao telefone com a responsável de uma instituição de acolhimento a mulheres e jovens que me ouviu e atendeu a minha solicitação. Hoje de tarde, estando eu novamente no hospital, recebi uma chamada da instituição, tendo sido informada por uma das assistentes sociais que “Maria” já tinha um tecto e que hoje já não dormiria na sala de espera.
Não duvidei de quem me telefonou, mas como sou muito teimosa e persistente, mandei uma mensagem a “Maria” informando-a da situação e se fosse possível para me ligar. Por volta das 20,30h recebi uma chamada que me encheu o coração.
“ Não sei o seu nome, mas estou muito feliz. Já tenho onde dormir, já tomei banho, comi uma refeição de prato e não sei como agradecer, pois só me apetece chorar”.
São estas pequenas grandes coisas que me enchem o coração, me fazem chorar de alegria e me continuam a dar muita força e muita vontade para continuar a viver. Hoje eu sinto-me ainda mais rica e um bem-haja a quem me ajudou a sentir ainda mais feliz.



.

.

terça-feira, julho 05, 2011

O dia da execução do bicho

5 de Julho de 2006

Meio-dia, marcava o relógio na parede do bloco operatório.

Sentia-me muito bem-disposta, mesmo depois de ter ouvido a médica radiologista dizer que eram vários os bicharocos. Os médicos e enfermeiros muito simpáticos sempre em amena conversa. A dada altura o anestesista pediu para contar até três e foi uma pedrada até às seis da tarde.

Foram seis horas de corta e coze e decisões que tiveram de ser tomadas sem que se tivesse previsto. Uma equipa excelente, a quem muito agradeço e por quem tenho um certo carinho. O bicho foi exterminado sendo a sua raça do piorio, tendo-se obtido os seguintes resultados:

-Receptores estrogénicos: positivos em mais de 90/% da população celular neoplásica

-Receptores progesterónicos: Positivos, igualmente, em mais de 90/% da mesma população celular.

-c-erbB-2- Negativo (score 1+)

Conclusão: Carcinoma ductal invasor, de alto grau nuclear, grau III, constituído por três nódulos tumorais independentes, o maior com 23mm e metástases em três dos 28 gânglios axilares dissecados.

Depois de toda esta análise, seguiram-se seis ciclos de quimioterapia, três com FEC 100 e mais três com Taxotere que me deram cabo do meu rico esqueleto.

Pois é!!!!! E aqui estou eu, viva e com a barriga toda esburacada das injecções e comprimidos à mistura para vos contar esta história e muitas mais que por mim se passaram e ainda virão a acontecer. A vida é muito bonita para que desistamos de lutar por ela.

A barreira dos cinco anos está quase lá e tenho a certeza que vou ultrapassar.

Enquanto houver estrada para andar, não vou parar...

 «Em Abril de 2006, foi-me detetado um cancro na mama, quando soube fiquei em choque, mas no mesmo momento pensei que mais importante era a ...